Mauricio Fujimoto, 51 anos, Engenheiro de formação, atualmente professor de Aikido o Templo Dojo
Por: Priscila Gorzoni

Priscila Gorzoni: Quando começou a praticar artes marciais?
Mauricio Fujimoto: Em torno dos 7 anos.
Priscila Gorzoni: Por que começou a praticar artes marciais?
M. F: Adorava os filmes.
Priscila Gorzoni: Quais pratica? Há quanto tempo?
M. F: Atualmente pratico Aikido há 30 anos e I Chuan a 25 anos. Já treinei por algum tempo, várias outras artes marciais.
P.G: De que maneira a arte marcial mudou a sua vida?
M. F: A arte marcial deu um objetivo na minha vida, uma razão de me aprimorar.
P.G: O que significa a arte marcial para você?
M. F: Auto conhecimento, crescimento interno e Amor.

P.G: Qual é a função da arte marcial na sua opinião?
M. F: Combater os próprios medos para conhecer nossa essência primordial, assim exercendo o Amor.
P.G: De que maneira ensina as artes marciais e qual é o seu objetivo?
M. F: Ensino da maneira japonesa; sincera e bela como a vida e a natureza. O objetivo é conhecer e encarar os medos, para isso o ensinamento é severo e rigoroso. Movimentação de corpo, fazer as formas, etc… são coisas extremamente secundárias. Ser resiliente para ouvir uma crítica, enxergar que nossa opinião é somente um ponto de vista sem certo ou errado, já é um grande início.
P.G: Se puder me contar alguma história que ilustre o seu trabalho?
M. F: A história é sempre a mesma das pessoas que vem buscar o nosso Dojo. A maioria da pessoas estão nos extremos, são carentes, precisam de atenção, necessitam estar certas e defendem seu ponto de vista arduamente como sua verdade absoluta, acham que sua maneira de pensar é o seu Ser. Não conseguem conviver com pessoas que pensam diferente, por isso grupos com pensamentos opostos só dialogam entre si e animais de estimação são a solução moderna de relacionamento e afeto. Tem medo do diálogo, pois acham que se colocarem uma posição diferente haverá briga ou discórdia. Essa é a história da grande maioria que não começam a treinar no Templo Dojo, querem se sentir incluídas, ter um grupo de amigos que apoiam e sejam legais sempre e omissos na verdade. Nosso trabalho consiste em se aprimorar, o caminho é solitário!
As pessoas são como são, com seus interesses e prioridades, cabe a nós aceitar. Assim, nosso Dojo faz com que você cresça e combata seus medos; o colega de treino não é para ser legal e passar a mão na cabeça, mas mostrar suas dificuldades, o ego desacerbado que todos temos e a contínua prática da perseverança e humildade. Quando chega alguém querendo praticar, somente digo que o que a pessoa acredita não é uma verdade. Somente um ponto de vista. Se entender treinará conosco, se ficar defendendo seu ponto de vista, irá embora reclamando do Dojo e do professor. Esse é o caminho, não vejo muitos lugares que seja tão severo como somos, somente no Japão onde vou regularmente treinar e lapidar meu espírito.

P.G: Porque resolveu seguir esse caminho nas artes marciais?
M. F: É o caminho do Budo, não é um encontro de amigos para jogar conversa fora.
P.G: Como vê a situação das artes marciais na atualidade?
M. F: Vejo os extremos novamente, um segmento onde há luta, a vitória enaltece o ego do praticante e o outro extremo onde somos “amigos”, um faz o que o outro quer, mas criticamos e excluímos aquele que não colabora.
P.G: Percebe uma crise de valores nas artes marciais? Em que?
M. F: Um dojo tem suas contas a serem quitadas, assim poucos professores são sinceros em dizer a verdade, pois o aluno irá embora furioso e o professor com um indivíduo a menos para pagar as contas no final do mês. Muitas vezes também tem medo de desagradar o aluno, pois um Mestre legal enaltece seu ego e abastece a carência omissa.
P.G: Como vê a formação dos professores de artes marciais?
M. F: Simplesmente técnica aqui no ocidente.

P.G: Quais criticas faz sobre alguns deles?
M. F: Falam de valores bonitos do Oriente mas na sua maioria nunca viajaram até lá ou talvez foram 1 ou 2 vezes e ficaram alguns dias. Já fui várias vezes ao Japão, agora estou começando a entender o Aikido, suas nuâncias e discursos mais profundos do fundador.
Sem esse aprofundamento, resta ensinar os movimentos e falar coisas bonitas como disciplina, respeito, perseverança, tradição, educação, etc…
P.G: Também gostaria de saber o que o senhor acha da participação das mulheres nas artes marciais, que ainda é um universo bem machista?
M. F: Acho que o Aikido, Tai Chi Chuan e as chamadas Artes Internas tem um público mais feminino, mas o machismo existe. Fundamental a presença da mulher com a referência do oposto, o uso da não força de músculos isolados e sensibilidade mais sutil.
P.G: Já deu aulas para as mulheres? Como foi? Quantas mulheres já formou?
M. F: Sim, mulheres sempre são maravilhosas no treino. Esse ano terei a primeira mulher faixa preta, depois de 25 anos dando aulas.
P.G: Como percebe o machismo ou não percebe nas artes marciais? De que maneira ele é prejudicial?
M. F: O Brasil é um pais muito machista, as artes marciais segue muitas vezes o mesmo caminho. A ausência de mulheres cria desarmonia no ambiente e falta de interação para um equilíbrio In/Yang.
P.G: Se puder falar um pouco sobre isso e até contar histórias de mulheres nas artes marciais. Sente preconceito no mundo marcial? De que maneira isso ocorre? Qual é o futuro das artes marciais na sua opinião? E suas considerações sobre o assunto.
M. F: O preconceito existe algumas vezes e também parte das mulheres muitas vezes. Eu, assim como muitos praticantes gostamos de treinar com mulheres, mas as vezes elas se acham discriminadas onde não há esse pré conceito.Só fato de escrever a respeito já cria uma diferença onde não deve haver. Sou oriental e sofro preconceitos, não acho que falando sobre isso melhore ou acabe com o fato. Aprendi com as artes marciais que nos cabe a aceitarmos a nós mesmos e ao outro como seres humanos, só assim tudo se resolve. O futuro é nos harmonizarmos com o universo, vejo as artes marciais com um dos caminhos.