Por: Priscila Gorzoni

O blog Curiosidades Marciais fez uma entrevista com o sensei José Fernando Panhan Júnior, 58 anos, médico psiquiatra, Awase Dojo, Aikido. Ele começou a praticar artes marciais aos 14 anos e atualmente se dedica ao Aikido. Entre os seus programas estão as aulas gratuitas que são dadas na USP Leste desde 2016. Nessa entrevista ele conta um pouco da sua trajetória nas artes marciais, no aikido e das perspectivas dessa arte marcial.
Priscila Gorzoni: Seu nome inteiro, idade, profissão, nome do dojo, da arte que pratica?
José Fernando Panhan Júnior, 58 anos (04/03/1961), médico psiquiatra, Awase Dojo, Aikido.
P.G: Quando começou a praticar artes marciais?
José Fernando Panhan Júnior: Em 1975 aos 14 anos de idade comecei a praticar Judô.
P.G: Por que começou a praticar artes marciais?
José Fernando Panhan Júnior: Nessa época havia um seriado de TV chamado Kung Fu, com o ator David Carradine, eu tinha vários amigos que treinavam alguma coisa (Judô, Karate,Capoeira) e a gente ficava brincando de lutar na rua, eu tinha um amigo da escola que já treinava judô e queria mudar de academia para uma “melhor” e me perguntou se eu não queria ir com ele e como eu não era de jogar bola e não praticava nenhuma atividade específica resolvi experimentar. Ou seja, por vários motivos e por nenhum motivo específico.
PG: Quais pratica?
Eu pratico Aikido, mas já pratiquei judô, karatê, hapkidô, capoeira, iaidô e jodô, algumas por pouco tempo outras por mais tempo.
P.G: Há quanto tempo?
Comecei a treinar Aikido em março de 1982, portanto esse ano de 2019 completou 37 anos.
P.G: De que maneira a arte marcial mudou a sua vida?
Diria que ao treinar uma arte marcial eu me tornei mais autoconfiante, mais senhor de mim mesmo.
P.G: O que significa a arte marcial para você?
Uma forma de melhorar a autoestima do praticante. O que começa como uma forma de se defender, gerando uma sensação de segurança pode evoluir para um aprendizado sobre si mesmo o que pode levar a um melhor entendimento de suas fraquezas a capacidades.
P.G: Qual é a função da arte marcial em sua opinião?
Desenvolver pessoas melhores, capazes de lidar com as adversidades de uma forma mais tranquila.
P.G: De que maneira ensina as artes marciais e qual é o seu objetivo?
Procuro, além de ensinar as técnicas específicas da arte marcial que escolhi, no meu caso o Aikido, mostrar que o que acontece no dojo é um reflexo de como agimos na vida fora do tatame, de que se somos inseguros no tatame isso pode ser um reflexo de nossa insegurança lá fora, se somos rígidos no dojo é provável que o sejamos lá fora e que se somos capazes de mudar no dojo podemos fazer o mesmo lá fora.
P.G: Se puder me contar alguma história que ilustre o seu trabalho?
Uma vez uma mãe trouxe o filho adolescente para treinar com a gente. Após um período de treino a mãe chegou para minha esposa que na época treinava e disse que estava muito feliz pois seu filho depois que começou a treinar apresentou grande melhora no comportamento escolar, que antes desafiava os professores, sempre recebendo advertência na escola e que depois que começou a treinar esse comportamento desapareceu.
Outra ocasião um aluno já mais velho trouxe o sobrinho para treinar com a gente e após um período ele chegou para mim e disse que depois que o sobrinho começou a treinar o comportamento dele havia se modificado radicalmente. Antes nas festas em família ele tendia a se isolar e quase nunca interagia com os primos e que depois que começou a treinar ele passou a se comunicar mais, brincar com os primos e “até contar piada”.

O interessante é que em nenhum dos dois casos eu havia tido uma atitude diferente com os dois alunos em relação ao restante do grupo.
P.G: Por que resolveu seguir esse caminho nas artes marciais?
Sinto-me feliz fazendo o que faço.
P.G: Como vê a situação das artes marciais na atualidade?
Posso falar do Aikido no Brasil que a meu ver está muito melhor do que quando eu comecei, pois temos muito bons instrutores, temos muito mais intercambio e muito mais locais para treinar.
P.G: Percebe uma crise de valores nas artes marciais? Em que?
Não sei se o problema está nas artes marciais ou se está nas pessoas hoje em dia, que tendem a ser mais imediatistas, que querem respostas prontas para todas as dúvidas, que não querem se esforçar muito para chegar a um objetivo.
P.G: Como vê a formação dos professores de artes marciais?
Por um lado termos os educadores físicos que às vezes não têm conhecimento de uma arte marcial e por outro lado temos mestres de artes marciais que às vezes não têm
conhecimento de didática, biomecânica, fisiologia do exercício etc. Parece-me que o ideal é ter os dois universos trabalhando em conjunto.
P.G: Quais criticas faz sobre alguns deles?
Não estou aqui para tecer críticas sobre os outros por isso falarei de mim. Quando comecei a treinar Aikido estava no segundo ano da faculdade de medicina e nunca imaginei que um dia viria a dar aula. Treinava porque gostava do treino, do ambiente, das pessoas.
Comecei a dar aulas por acaso. Eu estava no terceiro dan e um amigo trabalhava em um lugar chamado Alquimia Interior que era um espaço de desenvolvimento pessoal. Nesse espaço havia aulas de Aikido e o sensei que lá trabalhava decidiu sair de lá e abrir o seu próprio espaço e esse amigo me perguntou se eu não queria dar aula no lugar do sensei que estava saindo. Eu já estava formado, trabalhando em um consultório particular e tinha disponibilidade de horário e comecei, sem nenhum preparo específico para dar aulas, a ensinar, em um processo que eu poderia dizer de “erros e acertos”.
Às vezes fico com vontade de voltar para a faculdade e fazer um curso de educação física para melhorar minha didática, conhecer um pouco mais de fisiologia do esporte etc., mas por outro lado não me atrai ter matérias como regras de jogos, jogos com bolas etc. Creio que se houvesse uma graduação em artes marciais como acontece no Japão eu estaria mais tentado a voltar para a faculdade.
P.G: O que acha desse hábito que os alunos têm de perguntar tudo para o sensei?
Acho normal, as pessoas são curiosas. Algumas perguntas são pertinentes, outras um pouco descabidas. Algumas vezes uma pergunta pode te fazer refletir sobre uma situação e te fazer elaborar melhor o porquê daquilo ser daquele jeito.
P.G: Também gostaria de saber o que o senhor acha da participação das mulheres nas artes marciais, que ainda é um universo bem machista?
Acho legal que elas treinem e deveria haver mais mulheres treinando, só não sei como fazer para atraí-las para o dojo.
P.G: Já deu aulas para as mulheres?
Sim.
P.G: Como foi?
Foi (e é) interessante. Quando eu era criança/adolescente os meninos tinham brincadeira como se empurrarem, dar soco no braço do outro para ver o quanto aguentava etc. Quando você
começa a treinar uma arte marcial está acostumado ao confronto físico. Já as mulheres não estão acostumadas a esse tipo de atitude e percebo que ainda hoje elas tendem a ter esse tipo de comportamento (é lógico que existem exceções). Alguma insegurança, medo de se machucar e de machucar o outro. A impressão que eu tenho é que à medida que elas se engajam no treino essa insegurança vai desaparecendo e elas vão se sentindo mais à vontade.
P.G: Quantas mulheres já formou?
Faixa preta? Duas, uma senhora que começou a treinar quando já tinha mais de 50 anos para fazer companhia para o filho e uma mais moça que treinava na academia de meu sensei e que passou a treinar com agente.
Minha esposa já era faixa preta quando nos casamos.
P.G: Como percebe o machismo ou não percebe nas artes marciais?
Não me parece que o problema do machismo esteja restrito às artes marciais, mas sim que tende a ser um comportamento aprendido na sociedade. Como homem não sofro por parte dos outros praticantes esse tipo de preconceito e acabo não percebendo esse tipo de comportamento. Enquanto professor procuro ficar atento a qualquer tipo de comportamento prejudicial dentro do dojo.
As artes marciais como judô, karatê e Aikido são oriundas do Japão que tem uma sociedade extremamente machista. Eu lembro de que quando o filme “Kagemusha, a sombra do guerreiro” de Akira Kurosawa estreou em São Paulo (por volta de 1980) eu fui ao cinema e me chamou a atenção uma roda de senhores japoneses conversando e atrás deles estavam as respectivas senhoras quietinhas sem interagirem umas com as outras.
Outro fato interessante em relação à cultura japonesa eu presenciei em uma viagem ao Japão. Tínhamos saído para beber e conversar com alguns aikidoista que havíamos conhecido e no grupo havia uma mulher, também praticante. Quando você esta bebendo a “etiqueta” diz que você serve todas as pessoas e coloca a garrafa de cerveja na mesa e alguém pega a garrafa e serve você, ou seja, você não se serve, mas alguém serve você. O problema é que essa regra não se aplica às mulheres. Primeiro que são elas que servem os outros, no caso homens, e ela é que se serve, pois ninguém a irá servi-la.
Outro exemplo interessante desse tipo de comportamento social eu presenciei em um documentário que assisti há muito tempo atrás, não lembro se na GNT ou em outro canal. Eles mostravam uma karateca da palestina e sua rotina de treinos e competições. O pai dela dava o maior incentivo e a mãe dela achava aquilo um absurdo, pois ela estava para se casar e ela devia deixar o esporte de lado e se concentrar nas suas “obrigações” de futura esposa. No final ela se casou e o marido exigiu que ela parasse de treinar ao que ela acatou para desgosto do pai.
P.G: De que maneira ele é prejudicial?
Você tolher qualquer pessoa de praticar algo seja em função de sexo, cor, classe social, orientação sexual, ou por qualquer motivo não me parece certo. Perdemos a possibilidade de melhorarmos como seres humanos.
Se puder falar um pouco sobre isso e até contar histórias de mulheres nas artes marciais.
Um fato interessante em relação ao Aikido é que o fundador Morihei Ueshiba ensinava o Aikido (que ainda não tinha esse nome) às mulheres da seita Oomoto Kyo, a qual ele pertencia, em uma época em que o machismo do povo japonês era ainda mais exacerbado. Outro ponto interessante em relação à seita Oomoto Kyo é que ela foi fundada por uma mulher (Nao Deguchi) e boa parte de seus lideres espirituais foram mulheres.
A arte marcial chinesa que tem sua origem ligada a uma mulher é o Wing Chun e em termos de diversidade podemos citar a história de Madame Satã, homossexual capoeirista bom de briga.
P.G: Sente preconceito no mundo marcial?
Como eu já falei acho que o preconceito, seja de sexo, cor, raça, orientação sexual, classe social etc., não é um problema do mundo marcial, mas sim da sociedade como um todo.
P.G: De que maneira isso ocorre?
Creio que tendemos a rejeitar aquilo que não conhecemos, aquilo que tememos e até mesmo quando projetamos no outro “defeitos” que não gostamos em nós e atribuímos ao outro esse tipo de problema. Às vezes usamos o “poder” para nos defendermos daquilo que nos “ameaça”. A melhor forma de combatermos isso é estarmos abertos para novas experiências. Uma coisa que acho interessante no Aikido é a possibilidade de conhecer pessoas diferentes onde quer que você vá no mundo, pois existe a “cultura” de receber outros praticantes de diferentes dojos.
P.G: Gostaria que você me contasse sobre o seu projeto na USP Leste, como funciona?
Minha esposa é docente na USP leste e quando nos mudamos do Campo Belo, na zona sul de São Paulo para Ermelino Matarazzo na zona leste de São Paulo eu parei de dar aulas regularmente como fazia antes. Em uma conversa sobre abrir um novo dojo, como proceder surgiu a ideia de abrir uma turma na USP leste dentro do programa de cultura e extensão (CCEx) que é um programa da universidade para aproximar o mundo acadêmico da sociedade em geral.
Fizemos a proposta que foi aceita pela universidade e começamos em 2016 com uma turma no período da tarde. Como o programa é ligado à universidade as aulas são gratuitas, meu trabalho é voluntário e as aulas são abertas tanto às pessoas da universidade (alunos tanto de graduação como de pós graduação, funcionários e docentes) bem como às pessoas de fora da universidade.

P.G: Quantos alunos tem? Quantas mulheres tem?
Isso vária de semestre para semestre. No momento (primeiro semestre de 2019) estou com 8 alunos, quatro mulheres e quatro homens
Conte um pouco dessa experiência.
No começo, em 2016 cheguei a ter 26 alunos, a maioria mulheres (16 mulheres) e a maior dificuldade que tive foi a de ensinar um grupo tão grande e heterogêneo a praticar uma arte marcial que visa controlar o oponente sem que ele se machuque. Para tanto as pessoas precisavam aprende a cair, a rolar, a derrubar seu parceiro sem que ele se machucasse. Uma coisa é você entrar em um dojo onde já existem pessoas praticando, que vão te acolher e ajudar nos primeiros passos, como fazer ukemi e com aplicar as técnicas. Outra coisa é você ter um grupo de 20 pessoas sem qualquer experiência e você precisa ensiná-las a cair (sem se machucar), a derrubar (sem machucar o parceiro).
Fizemos uma aula voltada só para mulheres nesse primeiro ano, no mês de março, para comemorarmos o dia internacional da mulher que infelizmente teve pouca procura, mas que estimulou outra professoras a incluir outras atividades voltadas para as mulheres e que acabou virando uma pratica recorrente, sendo que todo ano é comemorado o mês da mulher em março com uma série de atividades.
Como em qualquer dojo algumas pessoas entram sem saber exatamente o que esperar desse tal de Aikido e algumas pessoas continuam treinando e outras param por não se identificar com a prática e lá na USP leste a situação é a mesma.
Desse grupo que começou em 2016 somente duas alunas continuam treinando comigo. Uma parte parou por não ter se identificado com a prática, outra parte parou porque a vida acadêmica assim o exigiu (estágio, estudos, provas, mudança de horário etc.), outra parte se formou e voltou para sua terra natal, ou arranjou emprego que não lhes permitiu continuar treinando.
Mas sempre estão entrando novos alunos que ficam mais ou menos tempo e a gente aprende a lidar com isso e sempre vamos aprendendo com eles, tentando melhorar a nossa didática.
P.G: Qual é o futuro das artes marciais na sua opinião?
É difícil dizer. Existe um grupo de pessoas que procuram as artes marciais para aprender a se defender, como se a vida fosse um filme de Steven Seagal ou do Jean Claude Van Damme e ficam discutindo se o Aikido funciona ou não, outra parcela acha que podem se tornar cavaleiros Jedis que ao apontar sua mão contra o oponente ele será arremessado longe. As pessoas se esquecem que para se tornar bons artistas marciais eles precisam treinar duro, com afinco e com prazer por aquilo que fazem.
Outro ponto importante é que enquanto a situação econômica do país não melhorar as pessoas não poderão se dedicar aos treinos, pois como costumo dizer, tudo na vida é uma questão de prioridades. Se tiver que trabalhar para sustentar minha família, por mais que eu goste de treinar vou ter que deixar os treinos de lado para poder trabalhar. Se minha prioridade é acabar a faculdade e para tanto tenho que deixar os treinos de lado, é o que eu farei.
P.G: E suas considerações sobre o assunto.
Eu ganhei muitas coisas com o Aikido para minha vida: amigos, autoestima, respeito, uma família e creio que devo dar algo em retorno ao Aikido e é por isso que dedico parte do meu tempo a ensiná-lo em um trabalho voluntário. Espero poder plantar uma semente em cada um dos alunos e que aqueles que precisaram para de treinar por algum motivo possam voltar a procurar um dojo de Aikido em algum lugar próximo de onde estejam.